Retratos da antropofagia na Literatura
Popular brasileira
Admari Cajado da Silva - UFBA
...– Mas, meu filho! Chegou viajante tão gordinho aqui, se cê tivesse chegado logo nós tinha pegado eles...[1]
A tribo dos índios Kiriris, situada na localidade de Mirandela, município de Ribeira do Pombal – BA, foi visitada pela equipe do Programa de Estudo e Pesquisa da Literatura Popular – PEPLP – no ano de 1988. De lá, foram extraídos textos narrados pelos próprios índios com o objetivo de formar o acervo do referido Programa para análises posteriores, à exemplo desta.
A epígrafe faz parte de um texto intitulado “O índio e a Cobra”, narrado por Ana Lúcia dos Santos, uma índia Kiriri de 10 anos de idade. Este texto conta a história de dois índios, um deles foi devorado pela cobra grande, enquanto estavam caçando viajantes que haviam sido atendidos pelo seu velho pai. A tentativa de “devoração” se torna explícita no texto no momento em que os filhos do velho chegam e este lhes diz que teve viajante gordinho passando por ali.
O motivo da antropofagia presente nessa narrativa talvez possa ser justificado como uma recorrência à memória ancestral dessa tribo ou à dos indígenas brasileiros.
Apesar da cena descrita ser bastante contundente no que diz respeito a um ato de canibalismo, a presença de motivos que remetem à antropofagia também aparecem em textos orais populares de procedência portuguesa, embora de maneira mais sutil, como é o caso do texto “A história do Teiú”, recolhido no mesmo povoado. Este texto trata-se de uma das variantes do texto “A Bela e a Fera” em que a Bela necessita da ajuda de um urubu para chegar ao reino encantado onde se encontra a Fera, como o urubu se encontrava muito fraco e já velho, a Fera compra quilos e mais quilos de carne a fim de que este possa se restabelecer e servir de ajudante, porém no momento em que estão voando em direção ao reino mágico o urubu começa a desfalecer e a Bela oferece pedaços de sua própria carne para não interromper a viagem, como veremos:
– É tamo ruim. O que é que nós vamos fazer?
Ela disse:
– Com coisa pouca será que dá pra chegar?
Ele disse:
– Dá.
Aí ela passou a faca na batata da perna, deu pra ele comer, né? Aí condo foi mais adiante, ele disse:
– Tamo ruim!
Ela passou a faca na batata da outra perna, deu pra ele comer. Aí fez a linha. (...)[2]
Se, tanto em uma como em outra cultura, a cena se repete isto caracterizaria o que Paul Zumthor denomina intervocalidade:
Algum bilinguismo, mesmo aproximativo, possivelmente interveio, em contrapartida, nas migrações e na perpetuação, nas longas durações, de temas ou “motivos” narrativos, concreções de elementos imaginários que, a um só tempo, eram muito estáveis e mal definíveis, em termos formais. (...). São inumeráveis os exemplos de fragmentos discursivos que viajam no espaço e no tempo e se imiscuem em configurações aparentemente as mais dessemelhantes: de um a outro, desenha-se em pontilhado não uma genealogia linear, mas um conjunto de relações complexas concernentes a vastas zonas da cultura tradicional e veiculadas por gerações de narradores. (Zumthor, 1993)
A fluxo livre dos ‘motivos’ está ligada não apenas a questão da adaptação mas também a criatividade do transmissor oral que pode se utilizar de inúmeros recursos da linguagem com o intuito de ser melhor entendido pelos seus ouvintes. A atenuação ou exageros por parte do contador de histórias, no momento da performance, é o que dá vida aos textos orais, talvez, justamente pela necessidade de torná-los mais atraentes ao gosto da platéia levando o transmissor a sentir-se tão à vontade no momento de inserir ou retirar partes da história.
Apesar da ocorrência do motivo do corte na batata da perna ser comum as duas culturas, não significa criação por parte dos portugueses e apreensão do motivo por parte dos índios brasileiros, uma vez que não podemos determinar a originalidade da narrativa. Pois os povos não se tornam fechados em sua própria cultura permitindo migrações de conceitos e de costumes na incorporação ou adaptação de motivos, tanto de dentro para fora como vice-versa.
A presença do motivo antropofágico neste texto, leva a pensar em duas possibilidades diferentes que o justifiquem na memória deste povo. A primeira é a suposição de que tal tribo praticava a antropofagia e que devido ao processo de catequização a tenham recalcado. E a segunda tentativa de explicar o fenômeno é que através do contato com outras culturas tomaram conhecimento do tema até então conhecido como ato primitivo.
Segundo o mapeamento feito e oferecido pela FUNAI, não se torna claro a evidência de que os Kiriris fossem antropófagos, mas não podemos contudo descartar esta possibilidade até mesmo pela falta de estudos com esta comunidade. O que se tem notícia é que estes índios foram vítimas da posse ilegal de suas terras por pessoas alheias, desde muito tempo e que até recentemente estavam em lutando pelo domínio dessa terra. O contato com outras comunidades já perduram um certo tempo o que justifica a aculturação dessa tribo. Mas apesar dessa aculturação registra-se, no momento da retomada de posse dos seus domínios, uma comemoração sob a forma de um ritual antigo e que há muito tempo este povo não praticava, mas que estava guardado na sua memória.
Sabemos que a discussão acerca da antropofagia, enquanto cena, impregna uma infinidade de textos na literatura brasileira. Oswald de Andrade brinca com a cena ao recordar a deglutição do bispo Sardinha, que representa a imagem do português, sendo devorado pelos índios. Tal ato representava a barbárie dos povos ditos não civilizados e que contaminava sobretudo a América de pecado e manchava a humanidade, segundo a visão etnocêntrica da crônica dos viajantes franceses: Jean de Léry, Montaigne e André Thevet.
A concepção de pecado, trazida da Europa pelos portugueses, instaura o primeiro julgamento e consequentemente a primeira condenação do ritual antropofágico, presente na cultura de alguns povos indígenas que habitavam e habitam o Brasil.
A origem das narrativas orais se dá pela memória de um contador, integrante de uma comunidade e consequentemente de uma cultura própria, detentora de suas tradições. O que se pode observar no texto é a relação do ritual antropofágico com a cultura dos índios Kiriris. A questão é saber-se se o motivo da antropofagia foi recalcado no âmbito da tradição desse povo ou se eles o incorporaram já dessa forma.
Com isso, podemos rever as questões de colonização, sobretudo da catequese no período colonial do Brasil, bem como a representação dos resultados obtidos por esta catequização. O grande problema encontrado para a efetuação de tal tarefa diz respeito à falta de material histórico-arqueológico sobre os índios Kiriris.
Walter Benjamin quando trata da narrativa oral define o narrador como um ser consciente de suas experiências e por isso as comunica aos demais através da narrativa. Para ele o que não é fato vivido é então considerado como contado e não mais narrado. Havendo assim, no momento em que se narra, a exteriorização de conceitos e de concepções de vida própria de quem narra.
Para Cascudo, a memória está ligada à tradição como um fio condutor de concepções tradicionalizadas nas culturas e que comunicam uma geração após outra. Aplicando esta idéia à narrativa, implica dizer que a lembrança da antropofagia habita a memória dos índios Kiriris e que mesmo tendo havido mudança de concepção em torno do seu sentido primeiro, não é esquecida, ou melhor, é sempre retomada através da memória deste povo.
Se colocamos em discussão as teorias que cercam a literatura oral, tendo como pensadores Paul Zumthor e Câmara Cascudo acerca da memória e Walter Benjamin a respeito do narrador detentor de experiências, acabaremos justificando a idéia de sobreposição de cultura, ou melhor, a tentativa de catequização dos índios os fizeram abandonar a antropofagia, mas, por se tratar de um tema ainda recorrente na memória da povo Kiriri, o comunicam até hoje.
Apesar do fluxo de motivos ser comum às duas culturas diferentes, isto não causa grandes problemas a literatura oral e popular: ao contrário torna-se fator importante para a conservação e divulgação de ambas. Ou seja, esta flexibilidade só enriquece o acervo de versões dos textos, contribuindo para a variação destas narrativas. Contudo é bom esclarecer que o tratamento dado a este fenômeno em Literatura Oral e Popular não é observado à luz da idéia de antropofagia de Oswald de Andrade, pois a medida que o texto oral vai sendo modificado fica mais claro as particularidades tanto do contador como da comunidade, onde este se encontra inserido, pois ao invés de conceber as idéias de fora, o transmissor oral vai buscar em suas próprias origens o elemento a ser inaugurado.
A discussão interpretativa do texto “O índio e a Cobra” demonstra como a questão antropofágica, apresentada nessa narrativa, reflete a busca da identidade cultural deste povo.
Referências Bibliográficas:
BENJAMIN, Walter. O narrador. In: Magia, e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. 7ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
CASCUDO, Luís Câmara. Tradição. Ciência do Povo. São Paulo: Editora Perspectiva, 1971.
LIMA, Tatiana. Retomada de Mirandela é motivo de comemoração para os Kiriris. Jornal A Tarde, 13.11.95
SANTOS, Abdias Ferreira dos. A história do Teiú. Mirandela-BA: Acervo do PEPLP, 1988.
SANTOS, Ana Lúcia dos. O índio e a cobra. Fazenda Picos, Mirandela-BA: Acervo do PEPLP, 1988.
SILVA, Andréa N. M. Literatura de Cordel: um ‘ninho’ de memórias e vozes. Anais do VII Congresso da Abralic. 1999, p 275-279.
ZUMTHOR, Paul. Memória e Comunidade. In: A Letra e a Voz: A “literatura” medieval. Trad.: Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: EDUC, 1993.